segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Memórias quase póstumas de uma vegetariana

Nunca gostei e, portanto, nunca comi carne. Nem branca nem vermelha, nem crua nem cozida, nem bem nem mal passada. Passo a vida dizendo um educado “não” a todos os garçons de rodízio de churrasco, dos quais desconfio colocar o espeto mais próximo da minha face do que do resto da clientela. Ainda assim, a única experiência de quase morte desta vegetariana que vos escreve envolve um grupo de vacas e um precipício.






Explico. Certo dia, fui visitar um amigo querido e passar o dia na sua cidade suíça chamada Altdorf, a mesma que ficou famosa pela lenda de Guilherme Tell (aquele que em 1307 foi forçado por um governador austríaco a atirar uma flecha em uma maçã posicionada na cabeça de seu filho e depois disso virou o herói da guerra de libertação nacional da Suíça). Durante nosso passeio, subimos em um teleférico e chegamos ao topo de uma montanha (Eggberge).  Lá em cima, tinha uma vila muito charmosa, um restaurante, uma trilha de hiking e uma vista de tirar o fôlego. Como qualquer paisagem suíça que se preze, havia também um grupo de vacas. E foi esse mesmo grupo de vacas que não apenas me tirou o fôlego, como quase me tirou a vida.

Explico melhor. Ali no topo daquela montanha tudo era muito rústico e não havia nenhuma cerca de proteção apropriada na beira do precipício. Não estou falando de um morrinho qualquer, são mais de 1400 metros! Estávamos ali, meu amigo e eu, caminhando e conversando sobre a vida e admirando o Lago Uri lá embaixo. Não havia nenhuma alma viva em volta. Exceto o tal grupo de vacas, que, inesperadamente, começou a nos encarar e caminhar lentamente em nossa direção. Pisco os olhos e vejo que meu amigo, sortudo por ser magrinho, rapidamente, escondeu-se atrás de um poste! Quanto a mim, fiquei ali parada. Um olho no barranco atrás de mim, o outro nas vacas que me cercavam. Sem conseguir me controlar, surpreendo-me cantando mentalmente “nunca vi rastro de cobra / nem couro de lobisomem / se correr o bicho pega / se ficar o bicho come...” e penso, com a voz lenta e grossa do Cid Moreira, “e é assim que acabará a vida desta que nunca teve a mínima vontade de comer um bife, nem seco nem sangrento”.
 
Perdida na ironia da minha iminente morte e recapitulando os conhecidos que realmente mereciam partir desta para melhor (contraindo algo tipo a doença da vaca louca), não percebi o exato momento em que as ditas cujas voltaram para os seus postos no pasto e meu amigo saiu de trás do poste. Ambos agindo como se nada tivesse acontecido.
 
Até hoje me pergunto o que aconteceu exatamente. Recebi eu um sinal de que deveria lutar ativamente na causa pró-vegetarianismo? Ou teria eu recebido um aviso da secção suicida de vacas, revoltadas com pessoas que (como eu) as privam da sua vontade de morrer? Representaria eu uma ameaça aquele grupo de vacas, que temeu ter sua grama verdinha de cada dia devastada por essa voraz vegetariana?
 
Bem, por via das dúvidas, confesso que tenho recusado todos os convites deste amigo para visitá-lo em Altdorf, temendo não ter a mesma sorte do filho do Guilherme Tell e desta vez acabar com uma flecha perdida atravessada na cabeça...
 
E com a permissão de Machado (aquele brasileiro notável, sensível e tudo o mais que só aparece a cada cem anos no mínimo, autor de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”), encerro esta crônica de forma atípica:
 
Ao verme que primeiro cogitou instalar-se nas folhas verdes da minha salada fresca dedico com imensurável repulsa estas memórias quase póstumas.