sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Hóspedes e hóspedes…

Certo dia, a exatos milhares de anos atrás, um homo sapiens achou uma caverna inabitada, de tamanho razoável e com vista privilegiada do mar. Mudou-se para lá com sua esposa homo sapiens. Não demorou até que aquele seu primo aparecesse na frente da sua nova residência, trazendo sua mulher arrastada pelos cabelos à la Fred Flintstone, ambos com a intenção de curtir uns dias de férias e, claro, hospedar-se ali mesmo no fundinho da caverna.  





Desconfio que, em algum momento da antiguidade, talvez entre o “só sei que nada sei” e o “penso, logo existo”, nossos antepassados deixaram implícito que quando você mora longe existe uma obrigação moral em hospedar as pessoas. São familiares de primeiro a décimo grau, colegas, amigos, primos dos vizinhos dos seus tios que têm essa mesma expectativa. O senso comum espera que você escancare as portas da sua casa, divida o seu banheiro, compre logo um sofá cama nas Casas Bahia e abandone de vez a ideia de montar um escritório no quarto vago. 

E não importa  se  “longe” significa outro país, outro estado, outra cidade, o bairro vizinho, o prédio da frente ou a rua de trás. Se seu apartamento da praia fica na Riviera Francesa ou no Boqueirão. Se o indivíduo em questão fala com você todos os dias por Whatsapp ou se nem dá feliz aniversário pelo Facebook. As pessoas farão planos de hospedar-se em sua casa. Ponto.

Agora o fato é que existem hóspedes e hóspedes… E a maioria nem imagina o trabalho e os gastos associados à preparação da casa. Sem falar no período pós visita que também envolve muita limpeza, lavagem de roupas, organização da casa e otras cositas más. A alegria da estadia, muitas vezes, compensa tudo. Mas nem sempre. Enquanto alguns se adaptam facilmente à rotina da casa, outros querem mudar todos os seus móveis de lugar. Imagine a felicidade do nosso amigo homo sapiens quando viu que seu hóspede tinha rabiscado a parede limpinha da sua caverna com aqueles desenhos rupestres que ninguém entende!

Pelo "Grand Hotel Casa de la Jackie" já passaram hóspedes e hóspedes…Teve aquele que chegou como um mero colega e saiu como melhor amigo. Teve o que pediu a namorada em casamento durante a viagem. Teve aquele que cozinhou receitas ótimas pra mim. Teve aquele que só queria comer fora. Teve aquele que chegou e todas as plantas morreram. O que só queria dormir e o outro que acordava antes das galinhas. Teve o baladeiro, o caseiro, o apreciador de vinhos, de uísque, de cerveja, de sucos naturebas. O engraçado, o quieto, o sonhador, os primos queridos. O que reclamou do fuso horário todo santo dia. Teve o casal que terminou o relacionamento logo após ter comprado as passagens de avião e, no fim das contas, só um deles veio.

Hóspedes e mais hóspedes... Ó! Teve ainda a visita gourmet e a que só queria fazer compras. Teve o mão de vaca. Teve o podre de rico. Aquele que só trouxe boas energias na mala. Teve o que escreveu um cartão lindo de agradecimento no final da estadia. Teve aquele que arrumou e limpou os armários da minha cozinha. Teve o que lavava toda a louça, o que arrumava a cama todos os dias, o que sem querer espalhava farelos de pão pela casa e o que deixava a cueca jogada no chão do banheiro. Teve o que foi embora sorrindo e o que foi arrependido de ter vindo. O que buscava pão fresquinho na padaria toda manhã. O que flertou com o meu vizinho e eu rezei secretamente para eles se casarem, assim ficaríamos mais próximos. Teve aquele que achou que aqui era a casa da mãe Joana. O que trouxe, sem hesitar, as mil encomendas que fiz. Teve aquele que o papo estava tão bom que nem vi o dia amanhecer.

E, por fim, há aquelas duas pessoas que eu daria o mundo para que me visitassem todos os finais de semana, tamanha a falta que fazem.

Foram hóspedes e hóspedes...

De muitos lembro com um carinho imenso, de outros com gratidão pela companhia. De alguns me pego sorrindo quando lembro da visita e a todos agradeço por me presentearem com esta crônica.

Foto: Reprodução