quinta-feira, 7 de maio de 2015

Não subestime um vegetariano

Existe um certo olhar de pena para com vegetarianos que nunca entendi. Especialmente com crianças. Adultos desconhecidos esqueléticos ou obesos, anêmicos ou com gordura no sangue capaz de alimentar uma população de canibais, frequentemente encaravam a versão criança de mim mesma com um ar de desprezo. O tom de voz até mudava quando falavam “ahhh nunca comeu carne”, deixando subentendido o “vírgula coitadinha”.  Garanto que nenhum deles jamais imaginou que por trás da doçura dos meus olhos verdes, da saúde das minhas bochechas rosadas e do brilho dos meus cabelos castanhos pairava a frase “coitado de você que se alimenta de restos mortais”.









Durante o decorrer da minha infância, fui coletando pequenas conquistas que comprovam que nunca se deve subestimar uma criança com uma chicória nas mãos.
 
Ainda enquanto feto, decidi que devia mostrar logo quem é que manda. Simplesmente proibi minha mãe de comer carne e ainda a forçava a comer 1 quindim por semana, pelo menos (meu docinho favorito desde então). Era isso ou provocaria os piores enjoos que uma grávida poderia pensar. 
 
Quando criança de 5 anos, recrutei minha avó para chantagearmos o Sr. Olavo, que morava no fim da rua. Este era o velho mais rabugento do pedaço, mas o único conhecido com uma árvore de romã no jardim. A tal árvore dava apenas 2 frutas por ano, quando então minha nonna me pegava pelo braço e descíamos a rua. Sem um pingo de vergonha do meu jovem cinismo, de repente me via com uma “cara de coitadinha”. Nonna batia palmas da frente da casa, sem campainha, do Sr. Olavo e lhe explicava “minha neta não come carne, mas tem muita vontade de romã, pobrezinha”.  Era isso ou eu abriria o maior berreiro ali na frente dele.  O velho então balbuciava algo ininteligível e voltava com uma das frutas embrulhado em papel filme.

Com 7 anos, fazia meu pai passar a maior vergonha na pizzaria da esquina. Por telefone, ele pedia “por favor, eu gostaria de uma pizza calabreza e 4 mini pizzas apenas com molho de tomate. É pra minha filha vegetariana. Isso mesmo, apenas massa e molho de tomate. Não não, sem carne moço”. Era isso ou eu faria greve de fome.

Já com 8 ou 9 anos, eu era a criança com mais tempo para brincar no recreio. Enquanto a maioria perdia 2/3 do tempo na fila da cantina tentando comprar uma coxinha gordurosa, eu tinha todo o tempo para comer uma frutinha trazida de casa, brincar no pátio e ainda comprar um chocolate depois sem pegar fila nenhuma. Era isso todo santo dia.

Até meus 10 anos forçava qualquer cristão que estivesse comigo a atravessar a rua, evitando passar na frente dos sempre perfumados açougues e peixarias. Era isso ou vomitaria ali em praça pública. Sério.

Na adolescência, minha participação financeira nos churrascos de amigos tinha que ser descontada e eu acabava sempre atacando o vinagrete e a salada, sem concorrência, já que todos os carnívoros estavam na fila pra abocanhar um pedaço de carne sangrento e gorduroso. Era isso e sempre vai ser isso.
 
Melhor não entrar no mérito e nos feitos da minha vida adulta. Mas é isso, se eu fosse você, não subestimaria um vegetariano. Pense que talvez nossa decisão não esteja associada ao amor aos animais e sim ao ódio as plantas!

Crédito da foto: Restaurante Hiltl